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1002 Fantasmas

ilustração Veridiana Scarpelli

trecho inédito



São Paulo, 24 de maio de 2018


Amigos! Vocês aí do Mil e dois fantasmas!!

Desculpe, mas só de chamar vocês de amigos já me sinto completamente louca. Não tenho a menor ideia de quem vocês possam ser... Mil e dois fantasmas? O que será isso?

Eu preciso me comunicar com alguém. É urgente! Aliás, esta é a primeira carta que escrevo na vida... quer dizer, mando mensagens o tempo todo, mas carta mesmo, dessas que a gente coloca no correio, não, eu nunca tinha feito isso antes... Quando eu era pequena gostava de escrever diários, mas depois comecei achar meio ridículo e joguei tudo fora... Agora, nesse momento, escrever para um endereço que eu vi no jornal me dá a impressão de estar fazendo alguma coisa, de ter um pouco de controle, de me acalmar.

O que pode ser mais assustador na vida da gente?

Nunca senti medo de nada, nunca pensei muito em fantasma, coisas do além, sobrenatural, nada disso. A única coisa diferente sobre mim é ter uma irmã gêmea. Meu nome é Catrina, minha irmã é a Carolina. Nosso pai é irlandês e nossa mãe é brasileira.

Ah, vejam só, estou me sentindo mais tranquila ao escrever, mas fugi do principal. Das coisas muito estranhas que estão acontecendo por aqui. Vou respirar fundo, fechar os olhos e tentar enfrentar o meu pavor...

Carol e eu estávamos juntas na frente do banheiro do espelho brincando de experimentar perucas. Nossa mãe é atriz então depois que terminam os espetáculos de teatro, ela traz as perucas e as maquiagens aqui pra casa. Mamãe diz que podemos sempre brincar de teatro, ela gosta quando fazemos isso. De vez em quando, organizamos um espetáculo. Quer dizer, escrevemos algumas cenas, depois filmamos e postamos. Nosso canal no Youtube, Gêmeas em cena, está fazendo o maior sucesso! Já temos centenas de inscritos!

Bom, na noite do terror, a Carol e eu não queríamos dormir cedo. Era sexta-feira, 13 de agosto, disso eu lembro muito bem. Coloquei a peruca de cabelos bem pretos, lisos, curtinhos e passei batom roxo. A Carol pegou a peruca de cabelos bem longos e brancos, passou base bem clara na pele, batom branco na boca...

– Você está parecendo um fantasma – eu disse e ri muito...

Mas a Carol não achou engraçado. Ela ficou parada olhando para o reflexo dela no espelho, sem piscar, a boca meio aberta....

– O que é isso, Carol? Você já está ensaiando? Mas ainda nem escrevemos o roteiro de hoje...

Nada. Nenhuma resposta. Senti o suor pingar da minha testa, mas era inverno e eu não sentia frio de verdade. Minha boca ficou seca. Abaixei a cabeça até a torneira da pia e bebi uns goles de água. Tomei coragem e olhei para o espelho. O reflexo da minha irmã era o mesmo: ela estava de boca escancarada, olho arregalado. Mas, de repente, ela ergueu o dedo da mão esquerda até o meio do espelho. Imitei o gesto, como se estivéssemos no teatro. Nisso, as duas janelinhas do fundo do banheiro se abriram com força e começaram a bater como se estivesse ventando muito. Corri até as janelas e achei que minha irmã iria fazer igual. Nada. Ela continuou parada daquele jeito totalmente bizarro, a boca aberta, apontando para o espelho. Estiquei o braço e fechei a janela à minha frente. Não chovia. Estranhei a ventania seca, mas tudo bem. De repente, minha irmã gritou. Foi um berro apavorado que atravessou minha cabeça com tanta força que quase desmaiei. Olhei para a janela de novo. E eu vi. Juro que vi. Isso que eu escrevo agora não é roteiro de peça, não é invenção, é a mais pura verdade.

A mulher voava perto da janela, as roupas brancas, os cabelos longos e quase transparentes, os olhos fundos. E ela cantava alto. A voz dela se misturava ao vento e doía dentro de mim. Era um canto sem palavras, como se fosse um uivo, só que, ao mesmo tempo em que era totalmente esquisito, tinha um som bonito. Um canto antigo que eu nunca tinha ouvido antes. Caminhei em direção a mulher do outro lado da janela. Nem me lembrei de que moramos no décimo andar e que ninguém normal poderia estar ali voando do lado de fora. Não sei por que, a única coisa que eu queria era puxar a mulher para dentro de casa. Era como se o canto dela fosse um pedido de ajuda e senti uma vontade muito grande de cuidar dela.

Estiquei a mão através da janela aberta.

– NÃOOOO!!

Dessa vez o grito veio às minhas costas. Minha irmã. Ela esticou a mão contra o espelho com tanta força que ele quebrou. Depois ela desmaiou. Corri para chamar meus pais. Eles estavam tranquilos, tomando chá e conversando na sala. Não tinham ouvido nada. Foi muito estranho. Eu tinha certeza de que as janelas tinham feito muito barulho, o berro da Carol também.

Quando mamãe entrou no banheiro e viu Carol desmaiada daquele jeito, o rosto muito vermelho, o cabelo encharcado de suor, levou minha irmã até a cama, depois correu e fechou a janela, depois pediu o termômetro ao meu pai, num minuto molhou a toalha de rosto na água quente e colocou na testa de minha irmã. Sim, ela estava com febre alta.

Resumindo: minha irmã ficou de cama por dois dias, sempre bem febril. Por mais remédios que ela tomasse a febre e o delírio não passavam. Ela passou essas 48 horas cantando. Igualzinho à mulher voadora, translúcida do lado de fora da janela. E quando finalmente melhorou, todos ficaram felizes e as coisas aparentemente voltaram ao normal.

A-p-a-r-e-n-t-e-m-e-n-t-e...

Porque Carol não é mais a mesma. Ela nunca mais quis fazer teatrinho comigo ou qualquer outra brincadeira. Ela não me conta mais nada, mas quando estamos com a família reunida, Carol age como se fosse a antiga. Ou seja, meus pais estão tranquilos, quem continua com muito medo sou eu.

Por quê?

Posso estar ficando ainda mais esquisita do que a Carol... mas não aguento ficar ouvindo toda vez em que ela canta aquilo que eu resolvi chamar de “A cançãozinha do além”. Eu disse do além porque cismei que aquela coisa, aquela aparição do lado de fora era um fantasma. E que talvez essa assombração tenha entrado na cabeça da minha irmã e dominado a personalidade dela. Eu vi um filme de terror em que isso acontecia...E o pior: quando nossos pais não estão conosco, Carol agora fala sozinha num idioma que eu não conheço. E de madrugada ela levanta da cama e anda pelo quarto como se fosse uma sonâmbula. Ela senta na escrivaninha e faz desenhos tão bonitos e esquisitos quanto essa música que não para de cantar. Eu já tentei dizer aos meus pais que minha irmã mudou, que algo de muito estranho está acontecendo em nossa casa. Acontece que a reação da mamãe foi o oposto do que eu esperava: ela gostou tanto dos desenhos da Carol que disse que vai usá-los em seu próximo espetáculo. Perguntou se eu estava com ciúmes. “É a primeira vez em que vocês não fazem algo juntas, Catrina”, ela me disse. Não tem nada a ver. Eu não sinto ciúmes. Sinto é pavor. Somos gêmeas idênticas. Cabelos castanhos, avermelhados e encaracolados, olhos verdes, ambas da mesma altura.

Quando a minha irmã fica pelo quarto girando, cantando, é como se uma parte de mim estivesse fazendo a mesma coisa. Fico só lembrando da mulher voadora na janela. E o suor brota na minha testa. A minha boca seca. O medo me domina e eu não sei o que fazer.

O que foi aquela aparição?

O que aconteceu com minha irmã?

O que significa tudo isso?

Espero que vocês possam me ajudar. Não tenho mais ninguém com quem conversar. Tentei até falar com amigos, mas todo mundo fica achando que estamos inventando nossa próxima peça de teatro para o nosso canal. Ninguém acredita no que eu digo...

Por favor, façam alguma coisa ou me digam o que preciso fazer...
Desenho de duas marionetes fantasmagoricas Catrina Sampaio O’neill
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MINHA CARTA AO MUNDO – COMO RASTREAR SUA HISTÓRIA

original em inglês Heloisa Prieto e Victor Scatolin
ilustração Daniel Bu Eno

trecho inédito

“Todo poema é uma espécie de carta.

Todo poema contém uma história...”

Assim pensava Caíque, enquanto atravessava a rua assobiando.

“Não uma história normal, com começo, meio e m”, ele dizia a si mesmo.

“Poemas contam outro tipo de coisa. Como um fragmento da vida de uma pessoa. Ou talvez a história de um nome próprio. Sua mãe sempre lhe dizia que tinha escolhido o nome Caíque do antigo idioma tupi. Caíque signi ca o pássaro que voa sobre as águas. Ele gostava disso. Mesmo que, às vezes, sua mãe lhe dissesse que se arrependia dessa escolha, porque ele vivia com a cabeça nas nuvens.

Contam coisas como um pedaço da história do dia em que ele tinha sentado no banco da praça, ao lado de seu Ângelo, o melhor sambista da cidade, em seu entender. Ou ainda, o novo poema que se desenha- va agora em sua imaginação, enquanto ele tentava capturar o momen- to em que descobriu a combinação das palavras com a música. Isso levou-o a olhar para as aves da praça.

Pensar que as aves voam para longe como palavras ao vento. Ouvir o canto delas, que era tão variado quanto as falas das pessoas. Nuvens... Poemas podem se desenhar na mente da gente. O segredo é saber como capturá-los.

Caíque correu até a praça.

Escolheu o banco vazio, sob a árvore antiga, acolhedora. Tirou o caderno da mochila. Abriu na página em branco. Olhou para o céu. E desenhou um poema...

Sorriu satisfeito.

Respirou fundo.

Levantou-se e seguiu a caminho da escola, atravessando a praça. Caíque sentia-se feliz ao lembrar do ano passado.

Todo mundo dizia a Caíque que ele tinha conseguido realizar seu sonho. Achavam que o garoto agora era um poeta. E o menino ria e respondia que nem rimar direito ele sabia. Para Caíque, era como se a poesia que brotava em sua cabeça zesse com que ele conseguisse enxergar coisas....

Nada era chato na sua vida, porque, aos seus olhos, não existia tédio. Qual seria o contrário de chato? Legal? E a diferença entre um e outro?

A poesia de Caíque não tinha só a ver com coisas bonitas, como o voo das aves ou o canto do sabiá. Se tinha uma coisa que ele sabia fazer bem era poema-piada, poema-imagem, poema-tristeza para se alegrar. Poema vazio. Poema silêncio. Poema que não acabava mais.

Quando Caíque dizia um poema, todos paravam para ouvir. Mas teve também quem o criticasse, quem lhe dissesse que toda poesia é inútil no nal.

Caíque devolveu:

E a vida é útil?

A gente serve para quê?

E ele mesmo concluiu:

Toda vida é um poema, todo poema é vida.

imagem do da capa do livro
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As aventuras de um cão chamado Petit

Editora FTD
texto Heloisa Prieto
ilustrações Maria Eugenia
pósfacio Raissa Pala Veras

Primeiro capítulo

Quando minha irmã nasceu eu morri de ciúmes.

Ela era minha boneca. Ninguém mais podia brincar com ela. Quando chegavam as visitas, eu logo dava um jeito de fazer algo estranho para afastar todo mundo de perto da Alice.

– Olívia! O que é isso, minha filha? Você quer tanta atenção assim?

O problema é que eu não queria que reparassem em mim. Eu só não gostava que ficassem pegando a minha Alice querida. Eu nunca imaginei que uma irmã que acabou de sair do hospital, pudesse ser bonita: a testa redondinha, os cabelos cacheados e a mãozinha que queria pegar meu dedo para brincar.

– A Alice é minha irmã! – eu dizia – e ela vai dormir no meu quarto depois que ficar maiorzinha.

E nós vamos brincar, tomar banho, viajar, ir para a escola, fazer tudo juntas...

Minha mãe não sabia o que fazer comigo. Muitos meses se passaram. A Alice ficou cada vez mais linda e eu cada dia mais ciumenta. Então, a idéia veio da cabeça do meu pai...

– Eu acho que conheço uma vacina anti-ciúme para Olivia! É tão simples! Ela precisa de um bebezinho só dela, alguém que ela adore...

– Ah, não, George! – disse a mamãe – está cedo demais para termos outro bebê!

– Bebê? – papai perguntou e depois não disse mais nada.

Fiquei sem dormir, só pensando no que Papai estava tramando. No dia seguinte, logo no café da manhã, ele disse para todas nós:

– Amanhã é dia de escolher cachorrinho... Vamos levar as meninas até o abrigo para que elas adotem um filhote. E cuidar dele será total responsabilidade da Olivia, certo, minha filha linda?

Outra noite sem dormir.

Eu nem acreditava em tanta felicidade! Eu sempre sonhava em ter um cachorrinho e o Papai tinha adivinhado o que eu mais queria...

Ao chegar ao abrigo, Mamãe desceu primeiro do carro, com a Alice no colo. Eu nunca poderia imaginar que uma bebezinha ficaria tão feliz num lugar cheio de cãezinhos. Alice não parava de rir. Batia palmas. Gargalhava. Nós passamos por cachorrinhos de todos os tipos, cores, tamanhos e idades... Como decidir?

imagem do livro mostrando Olívia e sua irmã no colo
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