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O Músico

original em inglês Heloisa Prieto
tradução para português Victor Scatolin
Para maiores informações: themusician.info

trecho inédito



  1. O mundo é habitado por todos os tipos de criaturas.
  2. Certas criaturas são estranhas, outras não.
  3. Certas criaturas estranhas são reais, outras não.
  4. Para ver o mundo como ele realmente é, deixe de lado palavras como "estranho, real ou imaginário".

Do diário de Thomaz, na primeira página

Segredo sonoro


Thomaz estava à beira de uma síndrome de pânico. Tudo parecia completamente fora do controle. Como assim? Por quê? Ele respirava lentamente, sua mente tentava encontrar o momento exato em que as coisas tinham dado errado.

Antes de sair de casa, ele havia colocado cuidadosamente todos os seus papéis em malas separadas. Ele sabia que alguma coisa estava fora da ordem natural no momento em que acordou e percebeu que um belo sonho se apagara de sua mente. Não era um bom sinal perder os bons sons.

Ele olhou o espaço ao redor. Thomaz não gostava de ter seu espaço estuchado de sofás e mesas. Os convidados eram raros e sempre diziam que ele era um minimalista, talvez para não lhe dizerem que o achavam um cara incomum. Livros e cadernos cuidadosamente empilhados espalhavam-se por toda parte, parecendo pequenos edifícios coloridos. Mesas baixas, de madeira, eram também cobertas por livros, exceto uma, que Thomaz usava para comer. Quase nenhuma cadeira, já que ele gostava de ler, brincar e comer de pernas cruzadas no chão lustrado, coberto por tapetes asiáticos. Numerosos instrumentos musicais viviam recostados nas paredes brancas, como se fossem árvores de uma bela floresta musical.

Thomaz mantinha suas malas perto da porta como se estivesse sempre prestes a viajar. A mala marrom, a maior delas, mantinha seus diários, a mala preta os documentos, a vermelha era para todas as agendas, as velhas e as novas; a mala verde cheia de listas de tantas coisas por vir e finalmente, a mala cinza, repleta de quadros, restos de ideias, sonhos confusos e visionários. A mala menor, na verdade uma mala de mão, guardava esboços, fotos da sua infância, e também suas fotos de céus, montanhas, , luas, lagos, estrelas e do mar...
Thomaz tocou lentamente todas elas e, de alguma forma, sentiu-se aliviado. Tudo parecia estar sob controle. Olhou de relance pro celular. Tinha muito tempo para tomar uma xícara de café. Thomaz olhou mais uma vez para suas malas antes de ir para a cozinha. As malas estavam todas quietas. Nenhuma criatura tentava fugir de suas páginas. Ele respirou fundo. Desde que era só um garotinho já tinha visto e ouvido seres musicais. Primeiro sentiu a presença deles como som e sombras, enquanto ainda era um bebê no berço. Sombras sonoras comoventes, tão amigáveis e belas que ele podia passar horas apenas vendo-as dançando descalças a sua volta. Levaria anos para ele perceber que outras crianças, muito menos adultos, não conseguissem ver ou ouvir seus doces amigos melódicos.

– Meu filho ama seus amigos invisíveis – dizia sua mãe a seus professores que o tinham como um cara doidão.

– Muitas crianças têm amigos invisíveis, isso é bem comum – sua mãe insistia.

Era inútil. Os professores nunca o trataram como às outras crianças. Pelo menos era assim que ele se sentia.

O celular tocou; era uma mensagem de voz de sua mãe. Ele sorriu. Ela parecia adivinhar seus pensamentos, às vezes. Thomaz deixou suas memórias de lado e olhou para fora da janela. Estava um dia tão lindo. Ele vestiu o casaco e o chapéu, pretos, cobrindo seus longos cabelos negros. Olhou de relance para o espelho e sorriu. Eles estavam sempre com ele. Criaturas musicais. As secretas criaturas de som. Num relance, ele viu vários seres sorrindo de volta para ele. Eles dançavam dentro e fora do espelho tão rápido, que ele dificilmente conseguia seguir seus pequenos e precisos movimentos. Era um dia de viradas. Ele assim sentia. Uma vida inteira passada em companhia da música certamente havia ampliado sua cabeça e seu coração. No entanto, ele não tinha ainda desenvolvido inteiramente seus próprios olhos musicais. Ele conseguia sentir muitas coisas, até mesmo o futuro, mas não prevê-lo. Os olhos devem ver, não ouvir. O que pode ocorrer quando os olhos ouvem?

Thomaz levou um tempo para decidir qual violão ele tocaria naquele domingo. Cada instrumento guardava seus próprios segredos. Além disso, ele não tinha certeza se deveria tocar, escrever ou desenhar. Tudo o que ele queria fazer era sentar-se em um banco perto da fonte e que o sol de seus raios acariciasse seu rosto. E ver suas criaturas musicais se lavando em águas límpidas. Sentir o barato de ser ser humano, desfrutar do poder de ser ele mesmo.

No entanto, olhou pela janela e viu o ponto de táxi lá fora. Ele olhou pro lado e percebeu que havia deixado sua viola espanhola encostada na parede. Já é. Ela seria sua companheira aquele dia. Thomaz pegou a grande case preta, depois pôs seu violão nas costas e adentrou o táxi.

Hora do almoço. Thomaz adorava observar as pessoas sentadas em refeições familiares, conversando, fazendo uma pausa do trabalho para compartilhar as notícias diárias. Qual seria a sensação de ter uma vida pacata e previsível? Thomaz tinha certeza de que nunca seria capaz de descobrir. De certa forma, ele ansiava ser como qualquer outra pessoa, vivendo apenas 24 horas por dia. Ao mesmo tempo, sua curiosidade por novos lugares e terras o mantinha incansavelmente na estrada. Tinha quase certeza que sua vida era trilhar o caminho dos músicos nômades. Cada vez que atravessava fronteiras, sentia como se quisesse entrar em uma terra atemporal. Um lugar pacífico, sem fronteiras, sem começos, sem meios, sem fins. A vida como ela é.

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Desenho de duas marionetes fantasmagoricas Catrina Sampaio O’neill
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MINHA CARTA AO MUNDO – COMO RASTREAR SUA HISTÓRIA

original em inglês Heloisa Prieto e Victor Scatolin
ilustração Daniel Bu Eno

trecho inédito

“Todo poema é uma espécie de carta.

Todo poema contém uma história...”

Assim pensava Caíque, enquanto atravessava a rua assobiando.

“Não uma história normal, com começo, meio e m”, ele dizia a si mesmo.

“Poemas contam outro tipo de coisa. Como um fragmento da vida de uma pessoa. Ou talvez a história de um nome próprio. Sua mãe sempre lhe dizia que tinha escolhido o nome Caíque do antigo idioma tupi. Caíque signi ca o pássaro que voa sobre as águas. Ele gostava disso. Mesmo que, às vezes, sua mãe lhe dissesse que se arrependia dessa escolha, porque ele vivia com a cabeça nas nuvens.

Contam coisas como um pedaço da história do dia em que ele tinha sentado no banco da praça, ao lado de seu Ângelo, o melhor sambista da cidade, em seu entender. Ou ainda, o novo poema que se desenha- va agora em sua imaginação, enquanto ele tentava capturar o momen- to em que descobriu a combinação das palavras com a música. Isso levou-o a olhar para as aves da praça.

Pensar que as aves voam para longe como palavras ao vento. Ouvir o canto delas, que era tão variado quanto as falas das pessoas. Nuvens... Poemas podem se desenhar na mente da gente. O segredo é saber como capturá-los.

Caíque correu até a praça.

Escolheu o banco vazio, sob a árvore antiga, acolhedora. Tirou o caderno da mochila. Abriu na página em branco. Olhou para o céu. E desenhou um poema...

Sorriu satisfeito.

Respirou fundo.

Levantou-se e seguiu a caminho da escola, atravessando a praça. Caíque sentia-se feliz ao lembrar do ano passado.

Todo mundo dizia a Caíque que ele tinha conseguido realizar seu sonho. Achavam que o garoto agora era um poeta. E o menino ria e respondia que nem rimar direito ele sabia. Para Caíque, era como se a poesia que brotava em sua cabeça zesse com que ele conseguisse enxergar coisas....

Nada era chato na sua vida, porque, aos seus olhos, não existia tédio. Qual seria o contrário de chato? Legal? E a diferença entre um e outro?

A poesia de Caíque não tinha só a ver com coisas bonitas, como o voo das aves ou o canto do sabiá. Se tinha uma coisa que ele sabia fazer bem era poema-piada, poema-imagem, poema-tristeza para se alegrar. Poema vazio. Poema silêncio. Poema que não acabava mais.

Quando Caíque dizia um poema, todos paravam para ouvir. Mas teve também quem o criticasse, quem lhe dissesse que toda poesia é inútil no nal.

Caíque devolveu:

E a vida é útil?

A gente serve para quê?

E ele mesmo concluiu:

Toda vida é um poema, todo poema é vida.

imagem do da capa do livro
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As aventuras de um cão chamado Petit

Editora FTD
texto Heloisa Prieto
ilustrações Maria Eugenia
pósfacio Raissa Pala Veras

Primeiro capítulo

Quando minha irmã nasceu eu morri de ciúmes.

Ela era minha boneca. Ninguém mais podia brincar com ela. Quando chegavam as visitas, eu logo dava um jeito de fazer algo estranho para afastar todo mundo de perto da Alice.

– Olívia! O que é isso, minha filha? Você quer tanta atenção assim?

O problema é que eu não queria que reparassem em mim. Eu só não gostava que ficassem pegando a minha Alice querida. Eu nunca imaginei que uma irmã que acabou de sair do hospital, pudesse ser bonita: a testa redondinha, os cabelos cacheados e a mãozinha que queria pegar meu dedo para brincar.

– A Alice é minha irmã! – eu dizia – e ela vai dormir no meu quarto depois que ficar maiorzinha.

E nós vamos brincar, tomar banho, viajar, ir para a escola, fazer tudo juntas...

Minha mãe não sabia o que fazer comigo. Muitos meses se passaram. A Alice ficou cada vez mais linda e eu cada dia mais ciumenta. Então, a idéia veio da cabeça do meu pai...

– Eu acho que conheço uma vacina anti-ciúme para Olivia! É tão simples! Ela precisa de um bebezinho só dela, alguém que ela adore...

– Ah, não, George! – disse a mamãe – está cedo demais para termos outro bebê!

– Bebê? – papai perguntou e depois não disse mais nada.

Fiquei sem dormir, só pensando no que Papai estava tramando. No dia seguinte, logo no café da manhã, ele disse para todas nós:

– Amanhã é dia de escolher cachorrinho... Vamos levar as meninas até o abrigo para que elas adotem um filhote. E cuidar dele será total responsabilidade da Olivia, certo, minha filha linda?

Outra noite sem dormir.

Eu nem acreditava em tanta felicidade! Eu sempre sonhava em ter um cachorrinho e o Papai tinha adivinhado o que eu mais queria...

Ao chegar ao abrigo, Mamãe desceu primeiro do carro, com a Alice no colo. Eu nunca poderia imaginar que uma bebezinha ficaria tão feliz num lugar cheio de cãezinhos. Alice não parava de rir. Batia palmas. Gargalhava. Nós passamos por cachorrinhos de todos os tipos, cores, tamanhos e idades... Como decidir?

imagem do livro mostrando Olívia e sua irmã no colo
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